«A religião é [segundo David Hume] uma emergência histórica, “surgida num segundo momento”, separado do reconhecimento racional da existência de um autor inteligente da natureza e do cosmo. Não existe, segundo Hume, uma religião natural, cuja universalidade seria comparável à dos instintos humanos comuns.»
in "As Ciências das Religiões", Giovanni Filoramo e Carlo Prandi, 1945 (página 59)
O livro de que retirei a citação supra tem 300 páginas e pretende abordar as “ciências da religiões”.
Contudo, ao longo das suas 300 páginas, o livro não explica absolutamente nada acerca das religiões: apenas se limita a transcrever a opinião de gente como David Hume. É isto que é considerado como “ciências das religiões”.
O paradoxo da ciência, em termos gerais, é que afirma que explica os fenómenos — e as pessoas acreditam. Mas qualquer espírito esclarecido pode verificar que a ciência não explica nada, porque explicar uma coisa significa conhecer racionalmente as causas fundamentais dessa coisa. O que a ciência faz é apenas e só tentar, dentro do possível, descrever os fenómenos.
David Hume é muito importante para as “ciências das religiões”, devido às suas posições não só moralmente cépticas e subjectivistas, mas também até por uma certa posição anti-religiosa. E uma das razões da posição anti-religiosa de David Hume poderá talvez estar no facto de ele ter sido homossexual. Agora, imaginem quais as consequências, para uma sociedade, da existência de um movimento político homossexual organizado e com a enorme influência política que tem hoje.
O que David Hume quer dizer, fazendo eu aqui uma analogia, é que “o ovo surgiu antes da galinha”.
Ele separa o ser humano, por um lado, da sua condição religiosa endógena, por outro lado, quando diz que a religião surgiu num “segundo momento” depois do aparecimento do ser humano. E depois, David Hume confunde “diferenciação cultural”, que está subjacente a toda a história do ser humano e em todos os seus aspectos [“história” aqui com o sentido abrangente que engloba os documentos humanos não-escritos da pré-História], por um lado, com “emergência ontológica”, por outro lado — “emergência histórica” que é entendida como algo que não existia ontologicamente no ser humano logo que este surgiu como tal. E, por último, confunde “expressão cultural da religião”, por um lado, com a religião propriamente dita, por outro lado.
A ideia segundo a qual “a religião surgiu pelo medo que o ser humano tinha dos raios, coriscos e trovões”, é de uma burrice e de um simplismo atrozes [tudo em nome da “ciência”]. E a ideia segundo a qual “o culto dos mortos é a causa da religião”, é outra burrice. Em ambos os casos confundem-se — propositadamente, penso eu — as causas, os meios e os fins. Por exemplo, o culto dos mortos não é a causa da religião, mas apenas um meio de expressão religiosa. E a “expressão da religião” não é uma mera expressão por via da linguagem, porque o animais irracionais [animal, neste contexto, deve ser entendido como irracional] também se exprimem mediante a sua linguagem própria.
Ao contrário do que a “ciência” diz, a linguagem humana não foi uma “invenção do Homem” nem decorreu da “evolução por selecção natural mediante pequenos passos”. Os órgãos físicos e a estrutura física global do ser humano, que permitem a linguagem humana, não podem ser explicados objectivamente à luz da evolução darwinista : não há nada anterior ao Homem, na “árvore da vida” darwinista, que possa sustentar racionalmente a tese da evolução da linguagem de um animal para a linguagem de um ser humano.
A (I) expressão é uma das características da linguagem humana, mas também é comum aos animais; (II) a comunicação é outra característica comum a animais e seres humanos; (III) o simbolismo também existe nos animais (por exemplo, os símbolos físicos que iludem os predadores, ou os símbolos que favorecem o acasalamento) e nos homens; a diferenciação, inexplicável pela ciência, entre animais e o Homem, surge com a (IV) função representativa [Karl Bühler] de frases que descrevem um estado de coisas objectivo que podem, ou não, corresponder à realidade dos factos — as proposições podem ser verdadeiras ou falsas. E acresce-se a (V) função argumentativa que só existe na linguagem humana e decorre da função representativa da linguagem humana.
A função representativa da linguagem humana decorre da consciência e da autoconsciência que só o ser humano tem. Dizer que “a religião surgiu num segundo momento da história do ser humano” é a mesma coisa que dizer que “a consciência e a função representativa do ser humano surgiu num segundo momento da existência do Homem”. É uma contradição em termos.
 
 
O. Braga | Quarta-feira, 19 Setembro 2012 at 2:01 pm | Tags: Cientismo, metafísica | Categorias: ética, Ciência, cultura, filosofia, religiões políticas, Ut Edita | URL: http://wp.me/p2jQx-daJ