quarta-feira, 19 de setembro de 2012

O absurdo das ciências das religiões

O absurdo das ciências das religiões

by O. Braga

«A religião é [segundo David Hume] uma emergência histórica, “surgida num segundo momento”, separado do reconhecimento racional da existência de um autor inteligente da natureza e do cosmo. Não existe, segundo Hume, uma religião natural, cuja universalidade seria comparável à dos instintos humanos comuns.»
in "As Ciências das Religiões", Giovanni Filoramo e Carlo Prandi, 1945 (página 59)
O livro de que retirei a citação supra tem 300 páginas e pretende abordar as “ciências da religiões”.
Contudo, ao longo das suas 300 páginas, o livro não explica absolutamente nada acerca das religiões: apenas se limita a transcrever a opinião de gente como David Hume. É isto que é considerado como “ciências das religiões”.
O paradoxo da ciência, em termos gerais, é que afirma que explica os fenómenos — e as pessoas acreditam. Mas qualquer espírito esclarecido pode verificar que a ciência não explica nada, porque explicar uma coisa significa conhecer racionalmente as causas fundamentais dessa coisa. O que a ciência faz é apenas e só tentar, dentro do possível, descrever os fenómenos.
David Hume é muito importante para as “ciências das religiões”, devido às suas posições não só moralmente cépticas e subjectivistas, mas também até por uma certa posição anti-religiosa. E uma das razões da posição anti-religiosa de David Hume poderá talvez estar no facto de ele ter sido homossexual. Agora, imaginem quais as consequências, para uma sociedade, da existência de um movimento político homossexual organizado e com a enorme influência política que tem hoje.
O que David Hume quer dizer, fazendo eu aqui uma analogia, é que “o ovo surgiu antes da galinha”.
Ele separa o ser humano, por um lado, da sua condição religiosa endógena, por outro lado, quando diz que a religião surgiu num “segundo momento” depois do aparecimento do ser humano. E depois, David Hume confunde “diferenciação cultural”, que está subjacente a toda a história do ser humano e em todos os seus aspectos [“história” aqui com o sentido abrangente que engloba os documentos humanos não-escritos da pré-História], por um lado, com “emergência ontológica”, por outro lado — “emergência histórica” que é entendida como algo que não existia ontologicamente no ser humano logo que este surgiu como tal. E, por último, confunde “expressão cultural da religião”, por um lado, com a religião propriamente dita, por outro lado.
A ideia segundo a qual “a religião surgiu pelo medo que o ser humano tinha dos raios, coriscos e trovões”, é de uma burrice e de um simplismo atrozes [tudo em nome da “ciência”]. E a ideia segundo a qual “o culto dos mortos é a causa da religião”, é outra burrice. Em ambos os casos confundem-se — propositadamente, penso eu — as causas, os meios e os fins. Por exemplo, o culto dos mortos não é a causa da religião, mas apenas um meio de expressão religiosa. E a “expressão da religião” não é uma mera expressão por via da linguagem, porque o animais irracionais [animal, neste contexto, deve ser entendido como irracional] também se exprimem mediante a sua linguagem própria.
Ao contrário do que a “ciência” diz, a linguagem humana não foi uma “invenção do Homem” nem decorreu da “evolução por selecção natural mediante pequenos passos”. Os órgãos físicos e a estrutura física global do ser humano, que permitem a linguagem humana, não podem ser explicados objectivamente à luz da evolução darwinista : não há nada anterior ao Homem, na “árvore da vida” darwinista, que possa sustentar racionalmente a tese da evolução da linguagem de um animal para a linguagem de um ser humano.
A (I) expressão é uma das características da linguagem humana, mas também é comum aos animais; (II) a comunicação é outra característica comum a animais e seres humanos; (III) o simbolismo também existe nos animais (por exemplo, os símbolos físicos que iludem os predadores, ou os símbolos que favorecem o acasalamento) e nos homens; a diferenciação, inexplicável pela ciência, entre animais e o Homem, surge com a (IV) função representativa [Karl Bühler] de frases que descrevem um estado de coisas objectivo que podem, ou não, corresponder à realidade dos factos — as proposições podem ser verdadeiras ou falsas. E acresce-se a (V) função argumentativa que só existe na linguagem humana e decorre da função representativa da linguagem humana.
A função representativa da linguagem humana decorre da consciência e da autoconsciência que só o ser humano tem. Dizer que “a religião surgiu num segundo momento da história do ser humano” é a mesma coisa que dizer que “a consciência e a função representativa do ser humano surgiu num segundo momento da existência do Homem”. É uma contradição em termos.
 
 
O. Braga | Quarta-feira, 19 Setembro 2012 at 2:01 pm | Tags: Cientismo, metafísica | Categorias: ética, Ciência, cultura, filosofia, religiões políticas, Ut Edita | URL: http://wp.me/p2jQx-daJ
 

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Estupidez Americana - Tom Holland e desconstrução do Islamismo

Tom Holland e desconstrução do Islamismo

by O. Braga

O embaixador dos Estados Unidos na Líbia foi assassinado pela turba islâmica protestando contra o documentário do realizador americano Tom Holland, com o título Islam: the Untold Story.
Segundo fiquei a saber, Holland refere no seu comentário que (1) Maomé não existiu; (2) que o Alcorão foi sendo escrito ao longo do tempo (ou seja, o Alcorão não surgiu no princípio da religião islâmica); e (3) que o próprio Islamismo foi-se moldando ao longo do tempo, ou seja, não teve propriamente uma formatação definitiva coincidente com a vida de Maomé que o próprio Holland diz que não existiu.
A existência histórica de Maomé é um facto documentado não só pelos muçulmanos do seu tempo, mas essencial e principalmente por documentos cristãos e europeus de finais do século VII e princípio do século VIII. Portanto, podemos dizer com toda a pertinência que Holland, para além de burro, é estúpido. No entanto, qualquer merda americana que apareça nos me®dia é automaticamente aceite como sendo verdadeira.
Porém, o que já não podemos provar ou demonstrar é que o Alcorão tenha sido escrito pelo próprio Maomé. Mas também não podemos provar ou demonstrar que o Alcorão não foi escrito pelo próprio Maomé. E, vai daí, a estupidez tipicamente americana assume como verdadeira uma das duas hipóteses que não são passíveis de demonstração, dando como verdadeira aquela que mais convém a um certo lóbi político de Hollywood.
O terceiro ponto, ou seja, que “o Islamismo foi-se moldando ao longo do tempo”, é a única menção verdadeira do documentário de Holland, porque se trata de uma verdade de La Palisse. Os americanos, herdeiros da corrente filosófica pragmatista, adoram as verdades de La Palisse; por exemplo, a seguinte proposição pragmatista: “o sol nasce a oriente porque não nasce a ocidente”. Perante uma constatação de facto como esta, os pragmatistas americanos exultam e rejubilam.
No meio disto tudo, aconteceu o pior: o documentário de Holland foi censurado na televisão inglesa, um embaixador americano e outras pessoas morreram na Líbia, Obama pediu desculpa aos muçulmanos pelo documentário [ao mesmo tempo que ameaça restringir a liberdade religiosa dos cristãos nos Estados Unidos] — tudo porque um ente sacrossanto de Hollywood se armou em historiador.

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Casamento” homossexual: um assunto político e religioso

Casamento” homossexual: um assunto político e religioso

Nilo Fujimoto

Os fatos revelam que a agenda homossexual nos EUA é imposta de cima para baixo. Apenas através dos poderes judiciários dos estados e da união é que medidas de caráter antinatural como o aborto e casamento homossexual são aprovadas, pois, de 32 referendos sob o “casamento” homossexual nenhum deles resultou na aprovação.

Desse modo, é crucial ao lobby homossexual vencer ao menos um desses referendos para conseguir que a mídia espalhe que se trata de uma causa popular ou democrática. Assim, a batalha que se desenvolve no Estado de Washington com relação ao referendo sobre o “casamento” homossexual tem tido colaboradores multimilionários que favorecem o “sim”.

P. J. Ginés no site ReligionenLibertad.com (1) descreve que a luta entre movimentos religiosos e movimentos homossexuais assemelha-se à luta entre Golias e Davi. Enquanto Golias é amparado pelos milionários dos EUA, como exemplo o fundador da Amazon.com que doou para o lobby homossexual 2,6 milhões de dólares, Davi é representado pelas paróquias católicas que não podem recolher donativos diretamente para causas políticas.

O motivo do impedimento é alegado pela porta-voz da Public Disclossure Commision no episódio em que o Bispo Joseph Tyson enviou uma carta a seus diocesanos pedindo-lhes para distribuir envelopes de donativos para a campanha “Preserve Marriage” entre seus paroquianos.

Há quem alegue que arrecadar fundos, para uma causa política, invalida, para efeitos fiscais, o caráter de entidade religiosa.

Discordamos, pois, o casamento é uma questão de esfera de competência mista. Trata-se de um contrato que envolve consequências de ordem civil e moral. Tratando-se de sucessão, patrimônio, guarda dos filhos, etc. isso é regulado pelo direito civil. Porém, das consequências morais do ato do casamento é de competência da Igreja reger. Por isso não é licito aos membros da hierarquia católica se omitir nessa problemática do referendo.

Para maior fundamento, recorro ao luminoso arcabouço doutrinário do pensamento de Plinio Corrêa de Oliveira. No artigo intitulado “Posição do ‘Legionário’ em face da política brasileira”, publicado no jornal Legionário, Nº 265 de 10 de outubro de 1937, ele escreve o seguinte:

“A subordinação da política à moral (2), implica pois, numa subordinação da política à Religião. Mas no seu campo próprio, a política constrói todo um edifício feito de material estranho à doutrina e à ação da Igreja. Não se pode, no entanto, separar a política da moral, da religião, como fez Maquiavel e como fazem os liberais, os socialistas, os adeptos do Estado totalitário, mas não se pode também estabelecer os princípios próprios da ciência política, isto é, da administração ou do governo, com princípios morais ou religiosos.

Não existe, pois, uma política teológica, mas há uma teologia política e na medida em que a política se subordina a esta, como deve ser, ela pode ser dita mais ou menos católica.

“Assim fica, também resolvido o problema de saber se a Igreja tem uma doutrina política. Sim, se por doutrina política entendermos os princípios que remotamente norteiam a ação dos governos, ou seja, princípios de ordem moral (teologia moral) aos quais se deve subordinar a ciência política para não cair nos erros do naturalismo político. Não, se por doutrina política entendermos um sistema completo de organização do Estado e do governo.”

(1) Cfr.: Referendo homossexual nos EUA: multimilionários contra paróquias, e com leis anticoletas

(2) A moral tem por objeto a ordenação da atividade humana para o seu fim último. As outras ciências práticas tratam de aspectos parciais da atividade humana. A economia por exemplo, estuda a atividade humana na ordem dos interesses materiais. Como os diversos fins que o homem pode ter em vista com a sua atividade se subordinam ao fim último, assim também as ciências que deles tratam (política, economia, direito, etc.) se subordinam à moral.


Fonte: http://ipco.org.br/home/noticias/casamento-homossexual-um-assunto-politico-e-religioso



 

Divulgação:

 



 

A revolução francesa matou mais gente em apenas um mês e em nome do ateísmo, do que a Inquisição em nome de Deus durante toda a Idade Média e em toda a Europa.

Segundo a Esquerda, “o amor é causa das guerras”

by O. Braga

« Tudo isto a girar em torno do conceito de identidade, colectiva e individual: a firme e propagada identidade duma nação; a procura de identidade de grupos emergentes; a perda de identidade dum bombeiro que deixou de o ser; a identidade incómoda duma mãe muçulmana que procura o filho; a brusca transformação da identidade de alguém ao ver a morte espalhada pelas ruas... »
A Esquerda — e o ateístas — dizem frequentemente que “as religiões são a causa das guerras”, o que significa literalmente dizer, por exemplo, que "a causa da guerra de Tróia foi o amor entre Páris e Helena" (não confundir com a Damião).
E esta crítica infundada e irracional às religiões advém da crítica genérica, moderna e contemporânea, à identidade no sentido da negação do Ser [niilismo]. De uma maneira intrinsecamente contraditória, a negação do Ser transforma-se em uma forma de Ser, e a negação moderna da identidade (por exemplo, no Existencialismo) assume, ela própria, uma forma peculiar de identidade. Nega-se ser aquilo que se é, e negando-se o que se é, assume-se uma forma de ser: é o mundo visto a partir de dentro de um manicómio.
Há que fazer a distinção entre “amor”, por um lado, e “amor-de-si”, por outro lado. O que falta à elite académica é ler os clássicos.
A causa da guerra de Tróia não foi o amor identitário entre Helena e Páris: antes, foi o facto de o rei de Esparta, Menelau, para além de ser um grande cornudo (o que parece não ser admissível num personagem com um grande Poder político), tinha naquela época um poder militar incomensurável à sua disposição. É esta a diferença entre o “amor” (entre Páris e Helena de Tróia), por um lado, e, por outro lado, o “amor-de-si” (do cornudo rei Menelau de Esparta).
O problema das guerras não tem a ver com a identidade (pessoal, religiosa, comunitária, nacional, etc.), não só porque é impossível deixar de ter identidade sem que essa falta seja, por sua vez, uma forma de identidade, mas essencialmente porque o problema da guerra está ligado com o Poder e com a afirmação ostensiva de Poder. E muitas vezes, a vítima torna-se no carrasco, e vice-versa, e de tal modo que deixamos de ter uma percepção apurada de quem é realmente a vítima do bullying do Poder — normalmente, a Esquerda (e o feminismo) considera-se sempre e invariavelmente a vítima do bullying do Poder através do exercício sistemático de um mecanismo mental maniqueísta, e da projecção sistemática da culpa, o que é, de facto, o mundo visto a partir de dentro de um manicómio.
Se, por absurdo, fosse possível a erradicação identitária das nações, das religiões, dos indivíduos, etc, a guerras não acabariam por esse facto. Ironicamente, a razão por que Montesquieu dividiu o Estado pelos três poderes foi no sentido de evitar a acumulação de Poder em uma só entidade; porém, a História depois de Montesquieu mostrou que nunca houve tantas vítimas inocentes em resultado das guerras como depois da revolução de 1789. O historiador francês Pierre Chaunu teve a seguinte frase escandalosa: “A revolução francesa matou mais gente em apenas um mês e em nome do ateísmo, do que a Inquisição em nome de Deus durante toda a Idade Média e em toda a Europa.”
E depois, temos a Helena Damião (não confundir com a de Tróia) a insinuar subrepticiamente — como é seu timbre e também o do blogue em que escreve — que "a culpa das guerras é da identidade" (nacional, religiosa, cultural, individual), e tudo isso em nome do maniqueísmo característico da Esquerda que projecta as culpas para “tudo o que mexe” e que não lhe convenha por razões pessoais, e talvez também por problemas identitários próprios provavelmente mal-resolvidos.
 
 
 

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Se não pararmos para pensar, vamos ter que aprender tudo de novo

Se não pararmos para pensar, vamos ter que aprender tudo de novo

by O. Braga

"A religião não só é a condição da liberdade eficaz do pensamento, como é a condição da função hígida do pensamento" — Fernando Pessoa
Chamo a vossa atenção para um ensaio [em inglês] de Thomas Bertonneau (parte I, e Parte II) que se centra em T.S. Eliot e na cultura, neste caso, na cultura ocidental. Aconselho veementemente a sua leitura.
A tese principal do ensaio é a de que não é possível uma cultura sem religião. Aqui, “cultura” é entendida como cultura antropológica, e não como cultura intelectual em sentido estrito. Portanto, e melhor dizendo, não é possível a formação de uma cultura antropológica sem uma religião. Podemos discutir se essa religião é A ou B, se deve ser esta ou aquela, mas devemos aceitar como racional a proposição segundo a qual não é possível a formação de uma cultura antropológica — e a sua manutenção como instrumento de coesão social — sem uma religião.
Montesquieu estava certo quando afirmou que “se Deus não existisse, teria que ser inventado”. E o problema da nossa sociedade moderna é o de que os deuses que se inventaram para substituir o Deus da religião cristã, são deuses humanos — e por isso coloca-se o problema das autoridades de direito e de facto, não só na ética mas também na fundamentação das normas do Direito. Quando os seres humanos pretendem fundamentar a ética sem Deus, criam para si mesmos um problema enorme e irresolúvel, como podemos verificar na eterna polémica, sem fim à vista, entre os dois tipos de cepticismo da modernidade: o cepticismo de Hume (externalista) e o de Kant (internalista).
A tese de Eric Voegelin do ataque dos gnósticos modernos — leia-se: gnósticos modernos = elites modernas, ou a chamada “ruling class” — à cultura antropológica europeia e ocidental, tem como fundamento a acção propositada e deliberada de destruição, por parte das elites modernas e contemporâneas, da espiritualidade humana presente na cultura antropológica, a qual advém da própria religião que contribuiu decisivamente para a formação dessa mesma cultura antropológica.
As elites gnósticas modernas justificam o seu ataque feroz e destrutivo à cultura antropológica e, portanto, à religião cristã, mediante o conceito de “igualitarismo”. Mas este argumento é contraditório em si mesmo, porque a noção de “elite” é, por sua própria natureza, não-igualitarista. Segue-se que o argumento do igualitarismo é apenas e só um pretexto de que a elite se serve para prosseguir uma agenda política de destruição da espiritualidade e da religião que cimentam a cultura antropológica do ocidente.
Tal como aconteceu com os gnósticos da antiguidade tardia, o objectivo dos gnósticos modernos é o de fracturar a sociedade em duas categorias de pessoas: os novos “Pneumáticos” — os que, alegadamente, detém o conhecimento e o saber, e por isso, destinados à “salvação” — e os novos Hílicos, que constituem a maioria e também a “escória da sociedade” — são os que precisam de ser guiados, como se de animais irracionais se tratassem, porque se presume não têm salvação possível. Este maniqueísmo gnóstico é “desmontado” por TS Eliot no ensaio de Thomas Bertonneau, quando se coloca em causa a autoridade do saber e o conhecimento dos gnósticos modernos, e na medida em que a especialização académica não é sinónimo de saber e de conhecimento absolutos: a especialização é apenas e só um saber parcial.
A sub-ideologia igualitarista, que faz parte do politicamente correcto do nosso espírito do tempo, nada mais é do que a tentativa de formatar a sociedade gnóstica que não vingou na antiguidade tardia por acção contrária do Cristianismo — sublinhando uma clivagem social e cultural abrupta entre as “bestas” [o povo], por um lado, e os “tios”, sendo que estes últimos fazem parte da ruling class. A actual ruling class não é uma aristocracia propriamente dita, tal como existiu no Ancien Regime, porque embora a aristocracia seja composta por indivíduos, qualquer indivíduo da aristocracia do Ancien Regime estava intimamente ligado ao povo mediante a cultura antropológica que é comum e transversal à sociedade inteira — o que não acontece hoje com as elites: pelo contrário, as elites modernas revoltaram-se contra ao povo, em nome de um paternalismo em relação ao povo.
É dentro deste espírito de segmentação das sociedades ocidentais entre os “tios” gnósticos e minoritários, por um lado, e as “bestas” maioritárias, por outro lado [sendo que os primeiros se opõem deliberadamente aos segundos quando pretendem a destruição da cultura antropológica] que assistimos à sinificação das sociedades ocidentais; e esta tentativa de sinificação das sociedades ocidentais encontra eco num compromisso táctico entre a plutocracia globalista, por um lado, e a esquerda radical e gnóstica por excelência, por outro lado.

« O princípio do regime totalitário é a fé dos militantes e o medo dos dissidentes » — Raymond Aron [“Democracia e Totalitarismo”, 1965]
Para além do argumento do igualitarismo, os gnósticos modernos, aka, elites modernas, utilizam um outro argumento: o argumento dos “direitos humanos” que, alegadamente, justificam hoje o ideário da absoluta autonomia do indivíduo.
O francês Marcel Gauchet — que de conservador tem quase nada, e portanto, é insuspeito — chamou à atenção para esta estratégia dos gnósticos modernos no seu livro “Os Direitos Humanos Não São Uma Política” [1983]. Nas chamadas democracias liberais ocidentais, as elites gnósticas modernas e coevas [ruling class] servem-se da bandeira dos Direitos do Homem para irem aumentando paulatinamente a organização burocrática da sociedade por intermédio do combate às tradições e à religião; e essa organização burocrática em crescimento é tutelada por essas mesmas elites neognósticas. Este incremento da burocracia nas democracias liberais [por exemplo, na imposição da burocracia da União Europeia a todas as democracias da Europa] conduz a um anonimato generalizado [atomização da sociedade], em que o conhecimento social de todas as espécies possíveis e imagináveis de direitos e liberdades [por exemplo, no Bloco de Esquerda] têm como contraponto o retraimento narcísico do indivíduo, e o seu desinteresse pela coisa pública.
E a omnipresente encenação da liberalização dos costumes [por exemplo, “casamento” gay, adopção de crianças por pares de homossexuais, eutanásia, divórcio unilateral e na hora, aborto a pedido e discricionário, tolerância legal em relação ao infanticídio, políticas dirigidas contra a família natural, etc.] , defendida pela elite neognóstica contra a cultura antropológica que inclui naturalmente a religião, encobre a propensão para um mimetismo, um seguidismo e um conformismo sem precedentes, e que constituem, em si mesmos, um rastilho para a explosão de um novo tipo e, por isso, inédito, de totalitarismo.
Chegamos a um ponto em que vamos ter que reaprender a cultura antropológica e a História que as elites modernas e gnósticas tudo fizeram para destruir. E a religião, principalmente a religião católica, tem um papel histórico e único a desempenhar neste caminho necessário de reaprendizagem da cultura antropológica e da herança histórica, sem as quais entraremos inexoravelmente em uma nova era totalitária.