domingo, 21 de agosto de 2011

CALVINISMO E CIÊNCIA

CALVINISMO E CIÊNCIA –

"Calvinismo - o canal em que se moveu a Reforma do Século XVI, enriquecendo a vida cultural e espiritual dos povos que o adotaram. O sistema que hoje a igreja cristã deve reconhecer como bíblico."

Sicut scriptum est...

Ciência e religião não se misturam, não combinam. Esse é o pensamento de muitos, se não da maioria das pessoas. O Calvinismo, por sua vez, encoraja o amor pela ciência, ao mesmo tempo em que restaura para a ciência o seu domínio e a liberta de laços artificiais e, finalmente, procura e encontra uma solução para o inevitável conflito científico.

Há no Calvinismo um impulso, uma inclinação, um incentivo para a investigação científica. Isso porque essa investigação comprova a doutrina da soberania de Deus e também serve de defesa contra o ataque a doutrina do decreto de Deus. “Todo o desenvolvimento da ciência em nosso tempo pressupõe um cosmos que não se torna vítima dos caprichos do acaso, mas que existe e desenvolve-se a partir de um princípio, segundo um ordem estável, visando um plano fixado.” Essa reinvindicação está em completa harmonia com a fé calvinista de que há uma vontade suprema em Deus, a causa de todas as coisas existentes, sujeitando-as a ordenanças fixadas e dirigindo-as a um plano preestabelecido. O Calvinismo considera o decreto de Deus como o fundamento e a origem das leis naturais. Do mesmo modo também encontra nele o firme fundamento e a origem de toda lei moral e espiritual. As leis naturais, bem como as leis espirituais, formam juntas uma ordem superior que existe segundo o mandato de Deus e por isso o conselho de Deus será completado na consumação de seu plano eterno, todo abrangente.

“Fé numa unidade, estabilidade e ordem de coisas como esta, pessoalmente como predestinação, cosmicamente como o conselho do decreto de Deus, não poderia senão despertar aos brados e vigorosamente encorajar o amor pela ciência.” – Kuyper

“Somente quando há fé na conexão orgânica do Universo, haverá também a possibilidade para a ciência subir da investigação empírica dos fenômenos especiais para o geral, e do geral para a lei que governa acima dele, e desta lei para o princípio que domina sobre tudo.” – Kuyper

Ao mesmo tempo que há o encorajamento pelo amor pela ciência, conforme dito acima, o Calvinismo, sem perder a visão do espiritual, conduz a uma reabilitação das ciências cósmicas. O Calvinismo, por meio de sua doutrina da graça comum*, novamente abriu para a ciência o vasto campo do cosmos, agora iluminada pelo Sol da Justiça, de quem as Escrituras testificam que nele estão escondidos todos os tesouros de sabedoria e conhecimento.

Mas o Calvinismo não apenas encoraja o amor pela ciência e restaura para a ciência o seu domínio, o Calvinismo promove a liberdade da Ciência. Para a ciência, para a genuína ciência, a liberdade é indispensável. Na Idade Média, as Universidades sucumbiram sob o poder do Papado e a ciência renunciou seu caráter independente - o direito de livre investigação era desconhecido. “O Calvinismo abandonou esta posição perniciosa com resultados eficazes; teoricamente por sua descoberta da esfera da graça comum, e a seguir, praticamente, oferecendo um abrigo seguro para todos que eram apanhados numa tempestade noutra parte.” Descartes, que teve de deixar a França católica romana, encontrou entre os calvinistas da Holanda, em Voetius, certamente um antagonista científico, mas um abrigo seguro na república.

O Calvinismo apresenta solução ao conflito científico: a livre investigação conduz a colisões – este é o conflito. Kant ou Hegel, Otimismo ou Pessimismo, Determinismo ou Moralismo, Darwinismo ou Criacionismo...a livre investigação produz várias escolas. Mas, não há conflito entre a fé e a ciência.

“Toda ciência num certo grau parte da fé, e ao contrário, a fé que não leva à ciência é fé equivocada ou superstição, mas não é fé real genuína. Toda ciência pressupõe fé em si, em nossa autoconsciência; pressupõe fé no trabalho acurado de nossos sentidos; pressupões fé na correção das leis do pensamento; pressupõe fé em algo universal escondido atrás dos fenômenos especiais; pressupões fé na vida; e especialmente pressupõe fé nos princípios dos quais nós procedemos; o que significa que todos estes axiomas indispensáveis, necessários a uma investigação científica produtiva, não veem a nós pela prova, mas são estabelecidos em nosso julgamento por nossa concepção interior e dados com nossa autoconsciência. Por outro lado, todo tipo de fé tem em si mesmo um impulso para manifestar-se livremente. A fim de fazer isto ela precisa de palavras, termos e expressões. Estas palavras devem ser a encarnação de pensamentos.” – Kuyper

Há sim o conflito entre a afirmação de que o cosmos, como existe hoje, está numa condição normal ou anormal. Para os normalistas o que tem de ser levado em conta são apenas os dados naturais e, assim, eles rejeitam a idéia da criação. Assim, eles também honram a fé num sentido formal, mas somente na medida em que ela se mantém em harmonia com os dados gerais da consciência humana, e esta sendo considerada normal. Já os anormalistas, sustentam inexoravelmente a concepção do homem como uma espécie independente, porque somente nele é refletida a imagem de Deus; concebem o pecado como a destruição de nossa natureza original e, consequentemente, como rebelião contra Deus. Portanto, nem a fé nem a ciência, mas dois sistemas científicos, duas elaborações científicas são opostas uma a outra, cada uma tendo sua própria fé.

Para o Calvinismo, a ciência não é desprezada ou deixada de lado, mas postulada para o cosmos como um todo e para todas as suas partes. O Calvinismo prega a liberdade para a Universidade – a verdadeira ciência deve livrar-se de seus laços artificiais.

“Devemos ter sistemas na ciência, coerência na instrução, unidade na educação. Só é realmente livre a ciência quem enquanto estritamente limitada a seu próprio princípio, tem o poder de livrar-se de todos os laços artificiais. O resultado final, portanto, será que esta liberdade da ciência também triunfará finalmente; primeiramente garantindo pleno poder para cada sistema de vida dominante fazer uma colheita científica de seu próprio princípio; - e em segundo lugar, rejeitando o nome de científico a qualquer investigador que ousar não expor as cores de sua própria bandeira, e não mostrar, adornado sobre seu escudo em letras de ouro, o próprio princípio pelo qual ele vive, e do qual suas conclusões derivam seu poder. – Kuyper

Enquanto isso, o pensamento livre, nas universidades, recebe críticas dos próprios pesquisadores e estudiosos. O pensamento anormalista é tido como retrógrado e, o pensamento criacionista é barrado. Em alguns poucos centros acadêmicos, a teoria Evolucionista é tida apenas como uma teoria, ainda não comprovada – e ela, de fato, ainda não tem comprovação científica. Assim, nos nossos dias, o Estado e a Igreja ganharam mais um aliado na luta contra a universidade livre, contra a liberdade de pesquisa científica: os Normalistas, os Evolucionistas.

Sicut scriptum est...

* Graça Comum - "Quando falamos de graça comum, temos em mente, ou (a) as operações gerais do Espírito Santo pelas quais ele, sem renovar o coração, exerce tal influência sobre o homem por meio da sua revelação geral ou especial, que o pecado sofre restrição, a ordem é mantida na vida social, e a justiça civil é promovida; ou (b) as bênçãos gerais, como a chuva e o sol, a água e alimentos, roupa e abrigo, que Deus dá a todos os homens indiscriminadamente, onde e quando lhe parece bom fazê-lo." - Louis Berkhof, em sua Teologia Sistemática (Editora Cultura Cristã).

PS.
1- Não reivindico nenhuma originalidade no material acima. São de Kuyper todas os pensamentos acima - exceto o último parágrafo.

2 - Sugiro a leitura de excelente material, publicado na Revista de Religião e Transdiciplinaridade, volume 1:1 (Maio de 2009) – Diálogo & Antítese, de autoria de Guilherme V. R. de Carvalho: “A objeção reformada ao dogma da autonomia religiosa da razão”.
Segue o endereço do blog do autor do material citado acima - http://guilhermedecarvalho.blogspot.com/
 
 
INSTITUTO DE EDUCAÇÃO E CULTURA REFORMADA

Reformar a Sociedade Brasileira através da Reforma da Educação e Cultura a partir da Cosmovisão Cristã, Reformada e Calvinista.

http://educacaoeculturareformada.blogspot.com/

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