quinta-feira, 20 de maio de 2010

CONSTITUINTES DA CIÊNCIA DA RELIGIÃO - Cinco ensaios em prol de uma disciplina autônoma

Um Rascunho-resumo-crítica por Luis Cavalcante (Conteúdo será atualizável)

USARSKI, Frank. Constituintes da Ciência da Religião: Cinco ensaios em prol de uma disciplina autônoma. São Paulo: Paulinas, 2006. – (Coleção repensando a religião) – 140 pp.

Início da Leitura: 19/04/2010 d.C – Término da Leitura: 23/04/2010 d.C.

Prefácio
(...) este projeto pretende ser uma série fechada, focada na discussão epistemológica da Ciência da Religião. p. 5

(...) as devidas distâncias entre o estudo científico da religião e as produções propriamente teológicas, em que o componente confessional é explicitado ou pressuposto nas entrelinhas do discurso. (...) Ensino Religioso nas escola públicas, que pressupõem um profissional qualificado, não em uma determinada teologia confessional, mas justamente na – pouco conhecida entre nós – Ciência da Religião. p. 5 (reducionismo filosófico – como se fosse possível uma “ciência da religião sem componente confessional e pressuposto nas entrelinhas do discurso”, ingenuidade intelectual achar que a “ciência da religião não tem uma teologia na entrelinha e que neste livro é notório o compromisso com uma “teologia secularizante ou liberal” - grifo Cavalcante).

(...) O Programa de Estudos Pós-graduados em Ciências da Religião da PUC-SP tem-se esforçado por construir um pensamento científico de fato emancipado do discurso confessional, embora em diálogo com os variados discursos teológicos. p. 6 (mais reducionismo filosófico – como se fosse possível construir um pensamento científico de fato emancipado do discurso confessional, falta maturidade acadêmica em reconhecer a confessionalidade do naturalismo filosófico na grande parte do “pensamento científico - ingenuidade intelectual - achar que a “ciência da religião não tem uma confessionalidade na entrelinha e que neste livro é notório o compromisso com uma “teologia secularizante ou liberal” - grifo Cavalcante).

(...) Insistimos, para tanto, na importância de uma aproximação científica ao mundo religioso, que garanta a devida autonomia a esta disciplina em relação às leituras teológicas. (...) queremos averiguar e discutir com a academia nacional em que sentido essa disciplina contribui para um estudo o mais completo possível do mundo religioso em todas as suas facetas. p. 6 (mais reducionismo filosófico – utopismo de uma “autonomia da Ciência da Religião em relação aos pressupostos teológicos”, não existe ciência da religião sem “teologia”, pelo contrário, é essencial a teologia e demais ciências para o desenvolvimento da ciência da religião relevante, se aproximando o mais próximo possível da “realidade” - grifo Cavalcante).

O trabalho que ora prefaciamos (...) eixo principal assenta-se na afirmação da autonomia de uma Ciência da Religião que, justamente em virtude de tal prerrogativa, pode apresentar-se em todo o seu potencial de crítica às ideologias vigentes na sociedade e nas corporações religiosas. p. 7 (Não existe autonomia em Ciência da Religião e em nenhuma ciência ou pensamento teórico é autônomo. Todo esforço teórico produz reducionismos, seria extremamente saudável para que o potencial de crítica às ideologias vigentes na sociedade e nas corporações religiosas por parte da Ciência da Religião possa começar com a crítica de si mesma, procurando abandonar a sua autonomia, sua rebeldia com a teologia, reconhecendo que o ser humano é um ser religioso e toda construção teórica e científica é religiosa e que no Princípio Deus criou os céus e a terra. A Ciência da Religião, principalmente no Brasil e no estudo de caso deste livro também na Alemanha precisam abandonar o seu metodologismo naturalista-filosófico e estruturar a sua teoria a partir do teísmo realidade total - grifo Cavalcante).

Dr. Afonso Maria Ligorio Soares – Professor Associado do Programa de Estudos Pós-graduados em Ciências da Religião no Departamento de Teologia e Ciências da Religião da PUC-SP.


Introdução

I - O CAMINHO DA INSTITUCIONALIZAÇÃO DA CIÊNCIA DA RELIGIÃO – Reflexões sobre a fase formativa da disciplina

1. Problematização do tema

2. Uma caracterização de tipo ideal da Ciência da Religião como ponto de partida

3. Pré-requisitos espirituais e socioculturais para a institucionalização acadêmica da Ciência da Religião

4. Pré-requisitos instrumentais para a institucionalização acadêmica da Ciência da Religião

5. O papel de Max Müller para a consolidação da Ciência da Religião

6. A institucionalização da Ciência da Religião como disciplina acadêmica autônoma


II - OS ENGANOS SOBRE O SAGRADO – Uma síntese da crítica ao ramo “clássico”da Fenomenologia da Religião e seus conceitos-chave

1. Introdução

2. As implicações ontológicas e antropológicas da Fenomenologia da Religião e as consequências para a abordagem ao mundo religioso empírico

3. A crítica à Fenomenologia da Religião

3.1. A crítica à negligência do contexto sociohistórico em que surgiu o termo e a falta de reflexão sobre suas implicações confessionais

3.2. A crítica à suposta universalidade do significado do termo “sagrado”

3.3. A crítica às implicações ontológicas e “criptoteológicas” da noção do sagrado

3.4. Reflexões críticas sobre o objeto privilegiado pela Fenomenologia

3.5. A crítica à negligência das referências múltiplas à transcendência no mundo religioso empírico

3.6. A crítica à suposta singularidade da “experiência” do “sagrado”

3.7. A crítica às implicações normativas na abordagem da Fenomenologia da Religião

3.8. Críticas à metodologia da Fenomenologia da Religião

4. Conclusão


III. O PERFIL PARADIGMÁTICO DA CIÊNCIA DA RELIGIÃO NA ALEMANHA

1. Introdução

2. O conceito de paradigma e suas implicações metateóricas

2.1. A teoria de paradigmas como paradigma metateórico

2.1. A dimensão filosófica de um paradigma

2.2. A dimensão sociológica de um paradigma

2.3. A dimensão histórica de um paradigma

3. A Ciência da Religião e suas predisposições metarreflexivas

4. Motivos da metarreflexão no contexto da Ciência da Religião na Alemanha

4.1. A tensão entre tendências reducionistas e fenomenológicas como motivo da metarreflexão

4.2. A religião ou as religiões? A questão do próprio objeto de estudo

4.3. A Ciência da Religião – disciplina ou campo disciplinar?

4.4. A relação problemática entre a Ciência da Religião e a Teologia

4.5. Resumo intermediário

5. o perfil paradigmático da Ciência da Religião na Alemanha

5.1. A exclusão de categoria do “sagrado” do repertório conceitual

5.2. A opção pela pesquisa indutiva

5.3. O destaque da integridade substancial da disciplina

5.4. Os lugares institucionais da Ciência da Religião como indicadores do caráter da disciplina

5.5. A estrutura dupla da Ciência da Religião como herança disciplinar

6. Conclusão


IV – DESCENDO A TORRE DE MARFIM – O impacto do discurso público sobre “seitas” na Ciência da Religião na Alemanha

1. Introdução

2. Retrospectiva: a Ciência da Religião alemã diante do surgimento de novos movimentos religiosos

2.1. A falta de interesse por novos movimentos religiosos e a exclusão da CRE da discussão pública sobre “seitas”

2.2. Estímulos construtivos extradisciplinares e a virada para uma pesquisa própria de novos movimentos religiosos

3. Problematização

3.1. Um olhar sistemático sobre estímulos transformadores na história recente da Ciência da Religião na Alemanha

4. Conclusão


V – O POTENCIAL DA CIÊNCIA DA RELIGIÃO DE CRITICAR IDEOLOGIAS – Um esboço sistemático

1. Introdução

2. Problematização

3. A doutrina de ídolos de Francis Bacon como base conceitual da reflexão sobre o potencial da crítica à ideologia da Ciência da Religião

3.1. Esboço da doutrina dos ídolos

3.2. Discussão

3.3. Resumo

4. Exemplificação do potencial crítico da Ciência da Religião

4.1. A sociedade como destinaria de uma crítica à ideologia

4.2. Religiões como destinarias de uma crítica à ideologia

4.3. Outras disciplinas como destinarias de uma crítica à ideologia

4.4. O cientista da religião em sua vida privada como destinatário de uma crítica à ideologia

4.5. A Ciência da Religião destinatária de uma crítica à ideologia


APÊNDICE – Algumas considerações sobre as interações entre ciência e religião – Entrevista com alunos do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião, da PUC-SP, em julho de 2002.

1. Como você define “religião”?

“...não é adequado pensar em uma definição fechada de religião, mas optar por certo conceito aberto capaz de superar um entendimento pré-teórico que generaliza fenômenos religiosos, sobretudo os de origem cristã, com os quais estamos culturalmente acostumados”. p. 125

“... dividimos o conceito de religião em quatro elementos:
Primeiro, religiões constituem sistemas simbólicos com plausibilidades próprias.
Segundo, do ponto de vista de um indivíduo religioso, a religião caracteriza-se como a afirmação subjetiva de que existe algo transcendental, algo extra-empiríco, algo maior, mais fundamental ou mais poderoso do que a esfera que nos é imediatamente acessível através do instrumentário sensorial humano.
Terceiro, religiões se compõem de várias dimensões: particularmente temos de pensar na dimensão da fé, na dimensão institucional, na dimensão ritualista, na dimensão da experiência religiosa e na dimensão ética.
Quarto, religiões cumprem funções individuais e sociais. Elas dão sentido à vida, alimentam esperanças para o futuro próximo ou remoto, sentido esse que algumas vezes transcende o da vida atual, e com isso possui a potencialidade de compensar sofrimentos imediatos. Religiões podem ter funções políticas, no sentido ou de legitimar e estabilizar um governo ou de estimular atividades revolucionárias. Além disso, religiões integram socialmente, uma vez que membros de determinada comunidade religiosa compartilham a mesma cosmovisão, seguem valores comuns e praticam sua fé em grupos. p. 125

2. Como você define “ciência”?

Ciência é uma maneira específica de se aproximar da “realidade” e de adquirir conhecimento sobre ela. (...) investigar certos segmentos da “realidade”. Para disciplinas como a Ciência da Religião é preciso que a “realidade” científica se restrinja à esfera empírica. (...) Temos de lembrar que ciência é um empreendimento coletivo. A vida acadêmica se organiza em sociedade científicas. O cientista individual faz parte de um conjunto de outros cientistas que se comprometem com as mesmas regras epistemológicas, referem-se ao mesmo vocabulário de termos técnicos e têm como pressupostos os mesmos pontos de partida. p. 126

3. O que é “Ciência da Religião”?

Ciência da Religião é a disciplina empírica que investiga sistematicamente religião em todas as suas manifestações. Um elemento-chave é o compromisso de seus representantes com o ideal na neutralidade ante os objetos de estudo. (Pura ingenuidade intelectual e reducionismo filosófico – grifo Cavalcante). Não se questiona a “verdade” ou a “qualidade” de uma religião. Do ponto de vista metodológico, religiões são “sistemas de sentido formalmente idênticos”. E especificamente esse princípio metateórico que distingue a Ciência da Religião da Teologia. p. 126

O objetivo da Ciência da Religião é fazer um inventário, o mais abrangente possível, de fatos reais do mundo religioso, um entendimento histórico do surgimento e desenvolvimento de religiões particulares, uma identificação e seus contatos mútuos, e a investigação de suas inter-relações com outras áreas da vida. (...) O reconhecimento de traços comuns do cientista da religião permite deduzir elementos que caracterizam a religião em geral, ou seja, como um fenômeno antropológico universal. (Puro reducionismo filosófico – grifo
Cavalcante). p. 126

A Ciência da Religião tem estrutura multidisciplinar. Trata-se de campo de interseção de várias subciências auxiliares. A História da Religião, a Sociologia da Religião e a Psicologia da Religião são as mais referidas. Mas há outras, por exemplo, a Geografia da Religião ou a Economia da Religião, matéria que atualmente ganha força na Universidade de Tübingen, Alemanha. No Brasil, na área da Ciência da Religião são frequentemente citados as teorias e os resultados da Etnologia e da Antropologia. p. 127 (Só faltou a Teologia da Religião ou Pisteologia da Religião – grifo Cavalcante)

4. Um cientista pode ser religioso? Por quê? De que forma a religião influencia no encaminhamento que o cientista dá a sua pesquisa?

Houve época na história da nossa disciplina em que se defendia a tese segundo a qual um verdadeiro cientista da religião deveria ser homem religioso ou mulher religiosa. O famoso livro de Rudolf Otto, O sagrado, elabora essa ideia já no seu primeiro parágrafo. (...) Achamos que a analogia de Otto é inadequada, (...) o cientista da religião quer entender os fatores que influenciaram o surgimento e o desenvolvimento da religião investigada. p. 127 (reducionismo filosófico – historicismo – antropologismo –“surgimento”? – se o próprio ser é um ser religioso, o homem é pura religião - grifo Cavalcante)

5. Qual é o estado atual da arte das pesquisas nessa área de Ciência da Religião no Brasil? E no mundo?

A situação internacional é muito complexa. (...) a Ciência da Religião na Alemanha tem tradicionalmente foco nas filologias e forte interesse nas religiões orientais, especialmente na Índia. Atualmente vivem cerca de três milhões de turcos no país, fato que levou a nova geração de cientistas da religião a uma investigação do Islã no ambiente europeu ocidental. Nos Estados Unidos, a Ciência da Religião é bastante influenciada pelas Ciências Sociais e, devido ao grande número de novas religiões que têm florescido num ambiente social liberal, as teorias e pesquisas nesta área são bastante desenvolvidas. (...) No Brasil, a Ciência da Religião, é uma disciplina relativamente nova. (...) O Brasil é conhecido como campo religioso extremamente dinâmico, porém, segundo cientistas da religião da Europa e dos Estados Unidos, falta um saber detalhado sobre a história e a situação religiosa atual. (...) Há pelo menos as seguintes áreas nas quais cientistas brasileiros desempenharão um papel importante na discussão: as chamadas religiões mediúnicas (candomblé, umbanda, kardecismo), as religiões de ayahuasca (santo-daime, barquinha e união do vegetal) e o pentecostalismo, a considerada “religiosidade popular”. Por outro lado, sob perspectiva internacional, são urgentes projetos sobre as grandes religiões não-cristãs como, por exemplo, o judaísmo, o islã, o baha’i e até mesmo sobre o budismo, religião tão frequentemente citada nas mídias. p. 127

6. Tendo em vista que o conhecimento religioso é dogmático, não-testável, depende de crença/fé e que o conhecimento científico é replicável, fidedigno, generalizável, na sua opinião, ciência e religião são divergentes ou convergentes? Por quê?

(...) cientistas empíricos não trabalham com conceitos metafísicos. Quer dizer, eles não levam em conta um nível extra-empírico. Isso não significa que neguem a existência dessa dimensão do “ser”, mas tomam a posição metodológica em que se considera cientificamente irrelevante a questão sobre a “última realidade”, sobre “o absoluto”, sobre algo que transcende as esferas “relativas”. p. 129 (mais um reducionismo filosófico – metodologismo - grifo Cavalcante)

Religião e ciência são ambas sistemas de compreensão e interpretação do mundo. p. 130 (mais um reducionismo filosófico – hermenêutica-dicotômica-dualística – Não existe ciência sem religião, e religião que não produza o estímulo ou desístimulo a pesquisa científica - grifo Cavalcante).

7. Você vê a religião como inibidora no processo de desenvolvimento da ciência?

A história prova que religião pode ter esse efeito. Isso é bem ilustrado pelo famoso caso de Galileu Galilei. p. 130 (mais um reducionismo filosófico – historicismo – temos mais casos positivos do que negativos – LIVRO: A ALMA DA CIÊNCIA de Nancy Pearcey - grifo Cavalcante).

(...) a hipótese de Max Weber, que diz que as ciências modernas têm raízes na tradição judaico-cristã e, por isso, se desenvolveram especificamente na Europa, onde as duas religiões haviam deixado suas marcas. p. 131.

(...) a religião, em vez de inibir o desenvolvimento da ciência, estimulou-o. Mas especificamente devemos pensar, por exemplo, em vários grandes físicos que eram homens religiosos e sua religiosidade não impedia que chegassem a novos paradigmas em suas áreas. p. 131. (mais um reducionismo filosófico – historicismo – “esta religiosidade não impedia”, pelo contrário, foi esta religiosidade cristã e principalmente a versão reformada e calvinista que contribui para o respectivo sucesso – LIVRO: A ALMA DA CIÊNCIA de Nancy Pearcey - grifo Cavalcante).

8. A religião pode ser considerada responsável pela dificuldade que a sociedade tem de aceitar novas ideias propostas pela ciência?

Sim, mas a pergunta mais relevante é: como avaliar esse efeito? Não é assim que as possibilidades oferecidas pela ciência correm riscos? Quem garante que uma inovação é aproveitada de maneira responsável e realmente contribui para uma vida melhor? p. 131.

(...) a história mostre que as religiões não podem deter o desenvolvimento científico, precisamos continuamente de mentes críticas refletindo sobre possíveis impactos negativos de algo que parece “progresso”. p. 132 (precisamos pensar melhor o que seria de fato “desenvolvimento científico” - grifo Cavalcante).